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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011










VIVER SEMPRE TAMBÉM CANSA

Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


Jose Gomes Ferreira

sábado, 1 de outubro de 2011

II




















II

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens - . .
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade. . .
É a eternidade.
És tu.

(Cecília Meirelles)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

“Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim,dividir um planeta e uma época com você.”

Carl Sagan.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

de Viviane Mosé.
















quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?

O tempo andou riscando meu rosto

com uma navalha fina

sem raiva nem rancor

o tempo riscou meu rosto

com calma

(eu parei de lutar contra o tempo

ando exercendo instantes

acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.

a vida anda passando a mão em mim.

acho que a vida anda passando.

a vida anda passando.

acho que a vida anda.

a vida anda em mim.

acho que há vida em mim.

a vida em mim anda passando.

acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo

é o tempo

na verdade faz tempo mas eu escondia

porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo

se você tem que me comer

que seja com o meu consentimento

e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem que ando até remoçando

muitas doenças que as pessoas têm são poemas presos

abscessos tumores nódulos pedras são palavras

calcificadas

poemas sem vazão

mesmo cravos pretos espinhas cabelo encravado

prisão de ventre poderia um dia ter sido poema

pessoas às vezes adoecem de gostar de palavra presa

palavra boa é palavra líquida

escorrendo em estado de lágrima

lágrima é dor derretida

dor endurecida é tumor

lágrima é alegria derretida

alegria endurecida é tumor

lágrima é raiva derretida

raiva endurecida é tumor

lágrima é pessoa derretida

pessoa endurecida é tumor

tempo endurecido é tumor

tempo derretido é poema

palavra suor é melhor do que palavra cravo

que é melhor do que palavra catarro

que é melhor do que palavra bílis

que é melhor do que palavra ferida

que é melhor do que palavra nódulo

que nem chega perto da palavra tumores internos

palavra lágrima é melhor

palavra é melhor

é melhor poema

receita para arrancar poemas presos:

você pode arrancar poemas com pinças

buchas vegetais. óleos medicinais

com as pontas dos dedos. com as unhas

com banhos de imersão

com o pente. com uma agulha

com pomada basilicão

alicate de cutículas

massagens e hidratação

mas não use bisturi nunca

em caso de poemas difíceis use a dança.

a dança é uma forma de amolecer os poemas

endurecidos do corpo.

uma forma de soltá-los

das dobras dos dedos dos pés. das vértebras

dos punhos. das axilas. do quadril

são os poema cóccix. os poema virilha

os poema olho. os poema peito

os poema sexo. os poema cílio


ultimamente ando gostando de pensamento chão

pensamento chão é poema que nasce do pé

é poema de pé no chão

poema de pé no chão é poema de gente normal

gente simples

gente de espírito santo

eu venho do espírito santo

eu sou do espírito santo

traga a vitória do espírito santo

santo é um espírito capaz de operar milagres

sobre si mesmo

para uma nova gramática:

imagine um sentimento água. um sentimento árvore.

uma agonia vidro. uma emoção céu. uma espera pedra.

um amor manga. um colorido vento sul. um jeito casa

de ser. uma forma líquida de pensar. uma vida paredes.

uma existência mar. uma solidão cordilheira. uma alegria pássaro em chuva fina. uma perda corpo.

acho que hoje acordei semente. tenho andado muito temporal. minha irmã vive um momento tudo. a vida

às vezes transborda pelos poros. me atinge um estado livro. aurora em meus joelhos. tem pessoas ponte.

algumas carregam a gravidade nas costas. já conheci gente



sábado, 27 de agosto de 2011




















‎"EU SEGURO SUA MÃO NA MINHA
PARA QUE JUNTOS POSSAMOS FAZER
AQUILO QUE EU NÃO QUERO ,
AQUILO QUE EU NÃO POSSO ,
AQUILO QUE EU NÀO PRECISO FAZER SOZINHO"

domingo, 7 de agosto de 2011


















bhavatu sabba mañgalam

segunda-feira, 18 de julho de 2011














Oração Ao Tempo

Caetano Veloso

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...
















Resíduo
Carlos Drummond de Andrade
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um poucode ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão.
Às vezes um rato.


segunda-feira, 11 de julho de 2011

beber no coração





















O RATO E A COMUNIDADE

1

O rato apareceu
Num ângulo da sala.
Um homem e uma mulher
Apareceram também,
Trocaram palavras comigo,
Fizeram diversos gestos
E depois foram-se embora.

? Que sabe esse rato de mim.
E esse homem e essa mulher
Sabem pouco mais que o rato.
2

Passam meses e anos perto de nós,
Rodeiam-nos, sentam-se com a gente à mesa,
Comentam a guerra, os telegramas,
Discutem planos políticos e econômicos,
Promovem arbitrariamente a felicidade coletiva.
Conhecem nosso paletó, camisa e gravata,
Nosso sorriso e o gesto de mover o copo.
Têm medo de nos tocar, não conhecem nossas lágrimas.
? Que sabem do nosso coração, do nosso desespero, da nossa
[comunicabilidade.
Que sabem do centro da nossa pessoa, de que são participantes.
...Subúrbios longínquos, esses homens.
3

Entretanto cada um deve beber no coração do outro.
Todos somos amassados, triturados:
O outro deve nos ajudar a reconstituir nossa forma.
O homem que não viu seu amigo chorar
Ainda não chegou ao centro da experiência do amor.
Para o amigo não existe nenhum sofrimento abstrato.
Todo o sofrimento é pressentido, trocado, comunicado.
? Quem sabe conviver o outro, quem sabe transferir o coração.
Ninguém mais sabe tocar na chaga aberta:
Entretanto todos têm uma chaga aberta.

4

Desconhecido que atravessas a rua,
? Que há de comum entre mim e ti.
A mesma solidão e a mesma roupa.
Procuras consolo, mas não podes parar.
És o servo da máquina e do tempo.
Mal sabes teu nome, nem o que desejas neste mundo.
Procuras a comunidade de uma pessoa,
Mas não a encontras na massa-leviatã.
Procuras alguém que seja obscuro e mínimo,
Que possa de novo te apresentar a ti mesmo.
5

A mulher que escolhemos, a única e não outra
Dentre tantas que habitam a terra triste,
Esta mesma, frágil e indefesa, bela ou feia,
Eis o mundo que nos é de novo apresentado
Por intermédio de uma só pessoa.
Esta é a que rompe as grades do nosso coração,
Esta é a que possuímos mais pela ternura que pelo sexo.
E nada será restaurado no seu genuíno sentido
Se a mulher não retornar ao seu princípio:
É a máquina instalada dentro dela que deveremos vencer,
Quando esta mulher se tornar de novo submissa e doce,
Os homens pela mão da antiga mediadora
Abrirão outra vez um ao outro os corações que sangram.
Murilo Mendes

domingo, 10 de julho de 2011

e a interioridade?











"Começo pela confissão de um sentimento conflituoso: é um prazer e uma honra ter recebido este convite e estar aqui convosco. Mas, ao mesmo tempo, não sei lidar com este nome pomposo: “oração de sapiência”. De propósito, escolhi um tema sobre o qual tenho apenas algumas, mal contidas, ignorâncias. Todos os dias somos confrontados com o apelo exaltante de combater a pobreza. E todos nós, de modo generoso e patriótico, queremos participar nessa batalha. Existem, no entanto, várias formas de pobreza. E há, entre todas, uma que escapa às estatísticas e aos indicadores numéricos: é a penúria da nossa reflexão sobre nós mesmos. Falo da dificuldade de nós pensarmos como sujeitos históricos, como lugar de partida e como destino de um sonho.

Falarei aqui na minha qualidade de escritor tendo escolhido um terreno que é a nossa interioridade, um território em que somos todos amadores. Neste domínio ninguém tem licenciatura, nem pode ter a ousadia de proferir orações de “sapiência”. O único segredo, a única sabedoria é sermos verdadeiros, não termos medo de partilhar publicamente as nossas fragilidades. É isso que venho fazer, partilhar convosco algumas das minhas dúvidas, das minhas solitárias cogitações.

(...)"

Mia Couto

segunda-feira, 4 de julho de 2011

meus pés.














Confio nos meus pés.
e na gravidez do meu sonho
e sua circularidade
de eterno.

quinta-feira, 23 de junho de 2011




















"Atrever-se a caminhar.


Durante sete anos não pude dar um passo. quando fui ao
grande médico ele me perguntou: por que você usa muletas?
e eu respondi: Porque estou aleijado. "Não é estranho",
me disse: "Experimente caminhar. São estes trecos que
te impedem de andar. ande, atreva-se! Arraste-se de quatro!"
Rindo como se fosse um monstro, pegou minhas queridas
muletas, as quebrou nas minhas costas e, sem deixar de rir,
as jogou ao fogo. Agora estou curado. ando.
fui curado por uma gargalhada. só algumas vezes,
quando vejo umas muletas, cambaleio um pouco por
algumas horas."

BRECHT, Bertold.

terça-feira, 21 de junho de 2011




















Uma Poesia para Saturno

Idade Madura
Carlos Drumond de Andrade

As lições da infância
desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras, nem delas careço.
Tenho todos os elementos
Ao alcance do braço.
Todas as frutas
e consentimentos.
Nenhum desejo débil.
Nem mesmo sinto falta
do que me completa e é quase sempre melancólico.
Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim.
Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
Absorvo epopéia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
Durmo agora, recomeço ontem.

De longe, vieram chamar-me.
Havia fogo na mata.
Nada pude fazer,
nem tinha vontade.
Toda a água que possuía
irrigava jardins particulares
De atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.

Nisso, vieram os pássaros,
rubros sufocados, sem canto,
e pousaram a esmo.
Todos se transformaram em pedra.
Já não sinto piedade.

Antes de mim outros poetas,
depois de mim outros e outros
estão cantando a morte e a prisão.
Moças fatigadas se entregam, soldados se matam
No centro da cidade vencida.
Resisto e penso
numa terra enfim despojada de plantas inúteis,
num país extraordinariamente, nu e terno,
qualquer coisa de melodioso,
não obstante mudo,
além dos desertos onde passam tropas, dos morros
onde alguém colocou bandeiras com enigmas,
e resolvo embriagar-me.

Já não dirão que estou resignado
e perdi os melhores dias.
Dentro de mim, bem no fundo,
Há reservas colossais de tempo,
Futuro, pós-futuro, pretérito,
Há domingos, regatas, procissões,
Há mitos proletários, condutos subterrâneos,
Janelas em febre, massas da água salgada, meditação e sarcasmo.

Ninguém me fará calar, gritarei sempre
que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,
negociarei em voz baixa com os conspiradores,
transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,
serei, no circo, o palhaço,
serei, médico, faca de pão, remédio, toalha,
serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,
serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais:
tudo depende da hora
e de certa inclinação feérica,
viva em mim qual um inseto.

Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade
com sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,
descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via.

Eles dizem o caminho,
embora também se acovardem
em face a tanta claridade roubada ao tempo.
Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número de casa,
e ganho.

sábado, 18 de junho de 2011

uma floresta dentro do meu coração


















Uma floresta
dentro do meu coração
suas raízes: seus ancestrais.
os erros adubam a terra.
flores
folhas
perfume
estrume
visito ela e amo ela dentro de mim
respiro seu ar
toco suas folhas e frutos e troncos e raízes
aprendo o valor da semente feia que rompe
e brilha entre céu e terra e águas e ar.
tudo devagar, sem parar.

sábado, 11 de junho de 2011















Passagem da noite


É noite. Sinto que é noite

não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
E noite no meu amigo.
É noite no submarino.

É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!

Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra

prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

Carlos Drummond de Andrade


--

é o fim de um tempo


"É o fim de um tempo em Londres" e dentro do meu coração também. Morremos só pra ficar nascendo e renascendo. Dentro de mim tem uma tempestade removendo camadas de terra só pra brotar novas velhas sementes. OM

domingo, 29 de maio de 2011

O amor será o remédio mais vital.
Você será seu milagre.
Clarissa Pinkola Estés

sábado, 28 de maio de 2011


NÃO HÁ BEM QUE SEMPRE DURE, NEM MAL QUE NUNCA ACABE

terça-feira, 24 de maio de 2011

pescar luz


"Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço...
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira do poço da sombra
e pescar luz caída com paciência"

Pablo Neruda

terça-feira, 17 de maio de 2011

Lua de Buda


Estou inteiro no que quero!
cada dimensão do meu ser tem um sentido: o mesmo.
alma, espírito, libido, emoção, instinto, razão, corpo: tudo com endereço certo.
farejo a estrada, erro e aprendo, escuto e vejo sem usar orelha e olho.
cheiro o Sol,
cheiro a Lua,
choro de alegria,
choro de saudade,
paro a bike todo dia pra ver o céu
e o presente que ele me oferece.
eu entrego presentes.

morro de rir de mim.

intuição e sensibilidade.
cuidado com o que me é raro e sagrado.
Sou menino homem que ama por inteiro sem medo,
sem jeito, inteiro, só me resta crescer.
meu corpo pira de saudade de carinhos. não qualquer um.
fiquei exigente.
a semente brota uma hora.
Paciência.
Amo.
"A gente se encontra pelo caminho, mais sábios e felizes"

sexta-feira, 6 de maio de 2011

ficar com.


"Amar significa ficar com. Significa emergir de um mundo de fantasia para um mundo em
que o amor duradouro é possível, cara a cara, ossos a ossos, um amor de devoção.
Amar significa ficar quando cada célula nos manda fugir."
C. P. Estés

pés sem vendas


Pés sem vendas
enxergo o chão
onde se deita tudo que morre
meu pé é canino
meu coração fiel
não escolho
escolho não escolher
assim eu e tudo é nada
nada é tudo
eu sou.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

ossos e numinosidade


caçando ossos e numinosidade.
Não quero gente-muleta.
quero o meu eu mais profundo,
minha essência.
é uma luta!
Aprendo com a vida como oferecer meu colo.
e quero colo.
amo muito as manhãs:
logo ela chega.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

"Declaro para todos os fins que nosso amor é um meio para dois inteiros." Jeff. Sooma

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

do amor


O amor é uma ocasião sublime para o individuo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por cauda de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe.

Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta(1904)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Luz própria me guie.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Devoto-me respeitosamente à lei mística de causa e efeito que rege o universo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

poema-desejo-manifesto para 2011

Imagens de poder para este ano: amor, meditação, ninho, renascimento, harmonia, equilíbrio, delicadeza, força e paz.

um poema-desejo-manifesto:

Vou te contar um segredo que acabei de inventar
para minha vida funcionar:
ao invés de bebermos e embriagar-nos
com este vinho, vamos nos olhar em silêncio?
vamos caminhar de mãos dadas e ouvir o mundo e dele extrair beleza?
vamos simplesmente caminhar de olho no céu, nas árvores, nas flores, nos ninhos e nos pássaros?
Vamos fazer pedidos silenciosos por nossos sonhos?
vamos refletir sobre o que queremos sagrar na vida?
vamos nos amar delicadamente.
Na semana que vem abrirei contigo o vinho e tomarei ao teu lado cada gole, vinho que se destinara à inspiração e não à embriaguês,
Levando em conta o mistério da Vida.


imagens de Duy Huynh